
Transtornos Motores de Fala

Os Transtornos Motores de Fala (TMF) referem-se a um grupo de dificuldades na produção da fala decorrentes de problemas neurológicos que afetam o planejamento, a programação ou a execução física dos movimentos necessários para falar. Diferente de um atraso de linguagem (onde a criança tem dificuldade em estruturar frases ou vocabulário), no TMF a dificuldade está na "entrega" do som pelos músculos da boca.
Para falar, nosso cérebro precisa enviar comandos complexos que dizem exatamente quais músculos mover, com que força e em que momento. Quando há uma falha nesse processo, seja no planejamento, na programação ou na execução muscular, estamos diante de um transtorno motor.
Dentro dos TMF, destacamos três quadros principais:
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Atraso Motor de Fala (AMF): Caracteriza-se por uma imaturidade no sistema de controle motor da fala. A criança apresenta um desenvolvimento mais lento das habilidades motoras orais, mas os erros costumam ser mais previsíveis e a imitação é mais fácil do que na apraxia. Estudos atuais indicam que o AMF é de 3 a 4 vezes mais comum na clínica do que a Apraxia.
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Apraxia de Fala na Infância (AFI): É um transtorno de planejamento e programação. O cérebro sabe o que quer dizer, mas falha ao enviar a sequência de comandos para os articuladores (língua, lábios, mandíbula).
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Disartria: É um transtorno de execução, causado por déficits neuromusculares (como fraqueza, paralisia ou falta de coordenação). Geralmente está associada a condições como Paralisia Cerebral ou síndromes genéticas, afetando não só a fala, mas muitas vezes a respiração e a qualidade da voz.
Quais são os principais sinais dos Transtornos Motores de Fala?
Embora cada quadro tenha suas especificidades, existem sinais que frequentemente acendem o alerta para a família. Como os TMF envolvem três condições distintas (Apraxia, Disartria e Atraso Motor), as manifestações podem variar conforme a complexidade da fala.
📢 Sinais gerais de alerta
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Baixa inteligibilidade: A fala da criança é muito difícil de ser compreendida por pessoas que não convivem com ela diariamente.
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Pobreza de sons: Bebês que balbuciam pouco ou crianças que utilizam um repertório muito restrito de consoantes e vogais.
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Dificuldade de imitação: A criança apresenta grande esforço ou "tateio" (procura visualmente a posição da boca) quando solicitada a repetir um som ou palavra.
📈 Dificuldade com a complexidade das palavras
Quanto maior a palavra, maior a exigência de planejamento motor. Por isso, é comum observar:
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Simplificações: A criança diz apenas o final das palavras (ex: "gato" vira "to") ou reduz sílabas (ex: "computador" vira "tador").
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Erros Inconsistentes (na Apraxia): A criança fala a mesma palavra de formas diferentes a cada tentativa (ex: "bola", "boda", "ola").
🎶 Alterações na prosódia (ritmo e entonação)
A melodia da fala é um dos grandes marcadores dos transtornos motores:
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Fala "Robotizada": Na Apraxia, a fala pode parecer mecanizada, com pausas inadequadas entre sílabas ou acentuação na sílaba errada (ex: falar "bolá" em vez de "bola").
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Fala Monótona: Na Disartria, a fala tende a ser linear, sem as variações naturais de melodia que usamos para fazer perguntas ou expressar emoções.
👅 Instabilidade ou imprecisão articulatória
Reflete a dificuldade física ou de coordenação dos músculos:
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Instabilidade de Mandíbula: No Atraso Motor, nota-se dificuldade em manter a mandíbula firme ou em realizar movimentos precisos como arredondar os lábios (bico) ou retraí-los (sorriso) durante a fala.
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Fraqueza ou Cansaço: Na Disartria, a fala parece "arrastada", muitas vezes acompanhada de baixo volume, voz anasalada ou excesso de salivação (escape de saliva).
🗣️ Qualidade vocal e respiração
Especificamente na Disartria, é comum observar uma voz mais fraca ou rouca. Isso ocorre devido ao baixo controle muscular não apenas da boca, mas também da respiração e do véu palatino (céu da boca), dificultando a sustentação dos sons.
Sinais de alerta no desenvolvimento (Soft Signs)
Além da fala, o desenvolvimento motor global e sensorial pode dar pistas importantes. Fique atento se a criança:
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Teve pouco balbucio quando bebê ou um balbucio com pouca variedade de sons.
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Apresenta dificuldades alimentares (engasgos, dificuldade de mastigação).
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Tem dificuldade em imitar movimentos faciais (mandar beijo, fazer careta).
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Apresenta "moleza" (hipotonia) ou rigidez no corpo e na face.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento?
O diagnóstico é realizado pelo Fonoaudiólogo, através de uma avaliação minuciosa que analisa desde a estrutura dos músculos da face até a funcionalidade da fala em diferentes contextos. É essencial diferenciar se a falha é de planejamento (AFI), de maturação (AMF) ou de força muscular (Disartria), pois o tratamento muda para cada caso.
O tratamento dos Transtornos Motores de Fala baseia-se em princípios de aprendizagem motora, envolvendo:
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Prática repetitiva: Treino constante dos movimentos corretos.
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Pistas Multissensoriais: Uso de pistas visuais (olhar a boca do terapeuta), táteis (toque na face) e auditivas para ajudar o cérebro a programar o movimento.
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Motivação constante: Uso de palavras-alvo funcionais para a criança.
Se você tem dúvidas ou percebe que a fala do seu filho é de difícil compreensão, procure um fonoaudiólogo especializado em motricidade orofacial ou fala.
Referências:
Duffy, J. R. (2013). Motor Speech Disorders: Substrates, Differential Diagnosis, and Management.
ASHA (American Speech-Language-Hearing Association).
Caruso, A. J., & Strand, E. A. (1999). Clinical Management of Motor Speech Disorders in Children.
Shriberg, L. D. et al. (2010). Childhood Apraxia of Speech vs. Speech Delay.

